'A família era muito mais presente na educação do aluno'

O exercício do magistério e a participação da família no processo de educação mudaram nas últimas décadas? No Dia do Professor, em meio aos debates sobre a valorização da profissão, conheça a história de Ângela Maria Mendes, a educadora mais antiga do Rio.

Era o dia do seu aniversário de 45 anos. O ano era 1993, estavam na moda as cestas de café da manhã e os carros de mensagens ao vivo para felicitações. A professora Ângela Maria Mendes tinha pânico de algum dia receber um daqueles, com barulho, bolas e constrangimentos ao megafone. Mas não teve jeito: um aluno lembrou o seu pavor e ofereceu a ideia à classe, sendo prontamente aprovado por todos.

– Eu gelei quando ouvi o carro de som me chamando na quadra. Queria cavar um buraco no chão e me esconder. Mas, na real, foi uma das memórias mais emocionantes que guardo de todos esses anos de profissão – conta a professora há mais tempo em atividade no estado do Rio, segundo dados da Secretaria Estadual de Educação, aos 65 anos, sendo 45 de magistério.

A quadra que recebeu o carro de som era a mesma azul-smurf em que Ângela deu a entrevista, na última segunda-feira pela manhã. Se dá aulas na rede pública desde 1968, só no Colégio Estadual Raul Vidal, no Centro de Niterói, ela o faz desde março de 1982.

Às vésperas do Dia do Professor, comemorado depois de amanhã, e num momento em que toda a classe se envolve em um amplo debate pela valorização da profissão, ouvir o que Ângela tem a dizer é, pelo menos, prudente. Dona de uma memória impecável, que precisa os acontecimentos de sua vida em meses e dias, a professora do Ensino Fundamental e Médio pausa por alguns minutos antes de fazer uma comparação entre o exercício da profissão quando começou e hoje em dia:

– A principal diferença que percebo não é o aumento do desinteresse dos alunos ou as novas tecnologias. Naquela época, eu tinha um contato muito maior com os pais. A família era muito mais presente na educação do aluno.

Ângela nasceu em São Gonçalo, é filha de um comerciante com uma professora — que durante 40 anos foi diretora de uma das maiores escolas de São Gonçalo. Nasceu praticamente dentro da instituição. Lembra de subir as escadas da escola aos 5 anos levando garrafas de café para a mãe, que virava noites corrigindo provas. Nunca pensou em outra carreira. Aos 21 começou a dar aulas como professora substituta em Arraial do Cabo, onde havia poucos professores. Anos depois, transferiu-se para Niterói. Lá, conheceu o marido — no ponto de ônibus, indo dar aula. Começaram a conversar, trocaram telefones. Casaram-se (ela fez questão de usar um vestido lilás na cerimônia). Estão juntos até hoje. Têm dois filhos: Elaine, de 34 anos, e Ângelo, de 32.

– Ela é durona, mas muito querida. Outro dia, torceu o pé, e o telefone aqui em casa não parou de tocar para saber como ela estava. Os alunos ligam a cobrar, mas ligam - conta Ângelo, que já teve de defender a mãe fisicamente de estudantes violentos.

Em Niterói, Ângela fez duas faculdades: História e Teologia. Quando recebeu o primeiro diploma, estava com um barrigão de oito meses de gravidez. Na pós-graduação, concluída em 2003, especializou-se em História da África. Vibrou quando o ex-presidente Lula sancionou a lei 10639/03, que tornou obrigatório o ensino de História da África no ensino básico. O entusiasmo passou: nunca viu a lei ser cumprida.

– Tenho certeza de que se as pessoas compreenderem mais a história africana passarão a respeitar mais o outro. O conhecimento diminui o racismo, a intolerância religiosa. Assim como a história indígena, a africana é muito complexa, não pode ser ensinada com generalidades – lembra Ângela. – Até pouco tempo atrás, os livros de História eram escritos por pedagogos. De todas as disciplinas, aliás. Só agora são escritos por historiadores. Ou seja: há muita revisão histórica que precisa ser feita.

Ela é um exemplo de que toda história é complexa. É católica, voluntária da Igreja Santuário das Almas, mas apaixonada pelas religiões africanas. Tem dois sonhos: fazer um mestrado, para se aprofundar na tese de comparação da mitologia grega com a mitologia africana — para cada deus grego, diz ela, há um orixá correspondente —, e implantar um programa de ensino religioso que não seja focado em Deus. Como? Ângela explica:

– É um curso de história das religiões fundado na moral das religiões.

Ângela acorda todos os dias às 8h, tem um cachorrinho hiperativo chamado Balboa que adora uvas. Tricolor doente, para passar o tempo joga Candy Crush no Facebook. Adaptou-se à internet assim que os primeiros computadores chegaram à escola, nos anos 90. Na sexta-feira passada, não pôde dar aula. Desculpou-se pelas redes sociais.

– Na real, eu procuro dicas para ampliar o conteúdo do material na internet - explica ela, que desde o início do ano é a responsável por um projeto do colégio que funciona como um supletivo do Ensino fundamental.

É uma professora "firme": não tolera boné em sala de aula, mesmo entendendo que o adereço é um "código" entre jovens. Nem palavrão. Nem celular. Já aplacou briga de casal em reunião de pais, já deu emprego a ex-aluno. Já viu aluna sua engravidar aos 12 anos. Já viu a escola ser destruída em brigas de alunos que moram em áreas de facções rivais. Já penou dando aulas de Matemática e Inglês por falta de professores.

– Uma característica impressionante na Ângela é a disposição. Ela abraça cada turma como se fosse a primeira, participa de todos os eventos da escola, é enturmada, faz questão de usar as gírias dos alunos. Ela é totalmente "da galera" - brinca a diretora da escola, Rosângela Comunale.

Ângela tem acompanhado as manifestações pelos jornais e pela TV. Não é sindicalizada, mas apoia as reivindicações. É resignada: não acredita que a situação vá mudar para melhor. É uma história de perdas, admite.

– As histórias de problemas, infelizmente, são mais numerosas do que as histórias legais - lamenta Ângela, que, ainda assim, diz que só vai parar de dar aula na aposentadoria apelidada por ela de "expulsória", aos 70 anos. - É uma profissão em que você ainda pode mudar alguma coisa, fazer pequenas revoluções na cabeça da galera. Se todo político se lembrasse de seus professores, não estaríamos tão desvalorizados.

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  • Fonte: http://oglobo.globo.com/educacao/a-familia-era-muito-mais-presente-na-educacao-do-aluno-10335853#ixzz2he01mP7L